Por Bernardo Rieux
13 de abril de 2005
Bernardo Rieux (1999)
Uma Introdução às Semióticas Americana e Européia
Charles Sanders Peirce
Sabendo-se que a ciência chamada Semiótica, ou teoria geral e da produção dos signos, teve sua origem em ao menos três lugares distintos - na Rússia, na Europa Ocidental e na América -, percebe-se que esse assunto é controvertido e multifacetado. Aqui, delimita-se a semiótica americana.Sabendo-se que a ciência chamada Semiótica, ou teoria geral e da produção dos signos, teve sua origem em ao menos três lugares distintos - na Rússia, na Europa Ocidental e na América -, percebe-se que esse assunto é controvertido e multifacetado. Aqui, delimita-se a semiótica americana.A semiótica americana tem seu expoente inicial com o cientista-lógico-filósofo Charles Sanders Peirce (1839-1914), filho de um importante matemático. Era devotado nas ciências culturais à lingüística, à história e à filologia, e tinha grande conhecimento da Crítica à Razão Pura, de Kant.Baseado, a princípio, com as categorias universais de Kant, e constatando mais tarde alguma semelhança também com Hegel, Peirce estipulou três categorias universais, começando a aplicá-las inicialmente à mente, e logo após á natureza. São estas categorias a de primeiridade, secundidade e terceiridade.A primeiridade consiste, por exemplo, na presença de imagens diretamente à consciência, sem uma consciência propriamente dita; melhor argumentando, "trata-se, pois, de uma consciência imediata tal qual é. Nenhuma outra coisa senão pura qualidade de sentir. A qualidade da consciência imediata é uma impressão In totum, indivisível, não analisável, inocente e frágil."(SANTAELLA, 1983, pág57).O caráter de secundidade já redunda em "conflito". Não é o não analisável da primeiridade, mas necessita dela para existir. É o mundo do pensamento, sem, no entanto, a mediação de signos. É a "arena da existência cotidiana" (Santaella). O aspecto segundo representa uma consciência reagindo ante o mundo, em relação dialética; uma relação dual.O que dizer sobre a terceiridade além desta categoria conter as duas últimas citadas? De acordo com Santaella, no nível do pensamento a terceiridade corresponderia ao nível simbólico, sígnico, onde representamos e interpretamos o mundo. Não é um caráter passivo, primeiro, mas a união deste com o segundo, acrescentando um fator cognitivo. Na terceiridade é posto uma camada interpretativa entre a consciência (segundo) e o que é percebido (primeiro). Nesse caráter fenomenológico Peirce começou a esquadrinhar seu sistema filosófico.Para esclarecer a definição de signo, Peirce estabeleceu o conceito de relação sígnica. Toda relação sígnica envolve o signo propriamente dito, o objeto e seu interpretante. A noção de interpretante não se define na de intérprete do signo, mas através da relação que o signo mantém com o objeto. A partir dessa relação, produz-se na mente interpretadora um outro signo que traduz o significado do primeiro (que é o interpretante do primeiro). Por exemplo, a palavra "casa" é um signo interpretante do signo casa estabelecido unicamente em cada subjetividade. Dessa forma, o significado de um signo é sempre outro signo, e assim por diante.Tendo suas categorias e a noção de signo, Peirce estabeleceu uma rede de classificações sempre triádicas dos tipos possíveis de signo, tomando como base as relações que se apresentam o signo. A relação mais elementar entre essas tríades se dá tomando-se a relação do signo consigo mesmo (primeiridade), com seu objeto dinâmico (secundidade) e com seu interpretante (terceiridade):Signo 1º em si mesmo1ºQuali-signoSin-signoLegi-signo
Signo 2º com seu objeto2ºÍconeÍndiceSímboloSigno 3º com seu interpretante:Rema DicenteArgumento No quadro acima, a indicação dos numerais 1, 2 e 3 remete diretamente às categorias Peirceanas.Ao pegar-se um signo com seu objeto, em aspecto icônico, temos por correspondentes em primeiridade um Quali-signo e uma rema. Por primeiridade ser a pura qualidade, é passível a várias "interpretações". Não chega a um signo restrito. Por exemplo, a idéia de Deus tem um caráter icônico.Partindo novamente da relação do signo com seu objeto, agora em caráter de secundidade encontra-se o índice. Aqui, o signo permanece bem mais restrito e concreto, pois "indica". Um exemplo disso seria o ponteiro da gasolina no carro, que indica o quanto aproximado há de combustível no veículo.Em terceiridade, ao ter-se o símbolo como ponto de partida, vê-se, no signo em si mesmo, um caráter de lei. Nesse aspecto podem ser encontrados os códigos (não especialmente um código genético, por exemplo, mas explicitamente a linguagem como código criado na esfera humana).Na forma expressa acima, percebe-se que o terceiro sempre precisa do primeiro e do segundo para sua existência, pois se assim não fosse, não teria seu caráter designativo ou qualitativo numa lei, ou num processo superior humano.Peirce, com suas tríades, criou miríades de associações, sendo esta, um dos pontos fundamentais de sua teoria.Algumas Noções de Semiótica Européia
A Semiótica Européia, em um de seus expoentes mais fortes, está fundamentada a partir do livro "Tratado de Lingüística Geral", de Ferdinand de Saussure. Esse livro deu margem à criação de várias correntes de pensamento, como o estruturalismo e constituiu-se como ponto de partida para a Semiologia desenvolvida por Rolland Barthes.Em relação aos determinantes teóricos da Semiologia, diferentemente de Peirce, que estabelece uma relação sígnica entre signo, objeto e interpretante, na corrente iniciada por Saussure são vistos o signo, o significado e o significante.O signo, numa definição mais básica, é qualquer coisa que substitua outra. Deste modo podemos imaginar um homem primitivo que desenhou um animal numa caverna representando o animal que havia caçado, por exemplo. O desenho do animal é o signo que representa o conteúdo que o homem primitivo quis expressar. Este homem, para representar o animal, uniu um conceito a uma imagem, ou seja, estabeleceu uma relação entre um significado e um significante. Saussure estipula o significante como uma imagem acústica, que constitui-se como a representação natural da palavra enquanto fato de língua virtual, ou a representação psíquica desse som. Passando para outros moldes além do verbal, o significante seria uma imagem que afetasse a mente de uma pessoa.Saussure estipula duas características primordiais do Signo:1ª: O Signo é arbitrário: Isso quer dizer que não há um laço natural entre o significante e o significado. Por exemplo, lua em Inglês é moon, enquanto em é italiano é luna. Com essa inferência Saussure distingue um signo de um símbolo; um símbolo teria uma relação com o objeto representado. Como exemplo, pode-se dizer que a cruz evoca muita coisa para um cristão, enquanto a suástica a um nazista ou a um judeu. O símbolo da justiça, a balança, não poderia ser substituído por um objeto qualquer, um carro, por exemplo.2ª: Caráter Linear do Significante: O significante, de natureza auditiva, desenvolve-se no tempo, unicamente, e tem as características que toma do tempo em determinada cultura.Com a constituição da linguagem verbal, existiriam relações sintagmáticas e relações associativas. As relações sintagmáticas estariam baseadas no caráter linear da língua, que exclui a possibilidade de pronunciar dois elementos ao mesmo tempo. Estes se aliam um após o outro na cadeia da fala, e tais combinações podem ser chamadas de sintagmas. Por ex., re-ler, contra-todos, a vida humana, etc.Uma relação associativa possuiria sua dinâmica fora do discurso, onde as componentes de determinada sentença se associam na memória e assim se formam grupos dentro dos quais imperam relações muito diversas. Por exemplo, a palavra superomem pode evocar em determinada mente palavras como superfície, supérfluo, homem rico, poder, etc.Referências:Saussure, F. Curso de Lingüística Geral. Ed. Cultrix.Orlandi, E.P. O que é Lingüística. Col. Primeiros Passos. Brasiliense.Santaella, L. O que é Semiótica.Col. Primeiros Passos. Brasiliense.Eco, H. Tratado Geral de Semiótica. SP, Perspectiva, 1997
D:\produçao editorial 1 a8\PROMOVE 3 PERIODO\SEMIOTICA\Semióticas americana e européia_ - 1 23 idade.htm
2 comentários:
Uma boa leitura sobre a Semiótica de Peirce é o livro "Tradução Intersemiótica" do autor Julio Plaza, onde o mesmo levanta questões sobre fidelidade e ressignificação.
Bem interessante essa sua avaliação sobre a matéria. Semiótica é sempre um assunto complexo, e a questão da semiótica européia é no mínimo curiosa.
ps: queromorarfora = Paulo Henrique
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